Tereza Batista Cansada de Guerra by Jorge Amado

Tereza Batista Cansada de Guerra by Jorge Amado

Author:Jorge Amado [Amado, Jorge]
Format: epub
Published: 2010-02-10T07:14:27+00:00


TEREZA BATISTA CANSADA DE GUERRA

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da varicela. Maxi, impaciente, queria resolver à bruta, vacinar na raça, criando conflitos, dificultando a execução da tarefa. Paciente e risonha, Tereza explicava, exibindo as cicatrizes das próprias vacinas no braço moreno, inoculando-se novamente para demonstrar a ausência de qualquer perigo. Ia tudo muito bem, populares vinham colocar-se frente ao posto à espera dos vacinadores, quando o estoque de vacinas terminou. Novo telegrama para Aracaju pedindo urgência na remessa. Doutor Evaldo, preocupado com o contágio cada dia mais exten- so, Obtivera no comércio oferta de alguns colchões para o lazareto onde deviam ser isolados aqueles enfermos sem condições de trata- mento em casa, os de maior perigo na propagação do vírus. Antes, po- rém, de colocar os colchões fazia-se necessária uma limpeza em regra na rudimentar construção de sopapo escondida no mato, longe da ci- dade, como se dela tivessem vergonha os habitantes. Em companhia de Maxi das Negras, cada um carregando creoli- na e água em latas de querosene, Tereza Batista entrou pelo caminho proibido; o mato crescera e Maxi descansava as latas em terra para abrir, com a ajuda de um pedaço de facão, picada por onde atravessa- rem. Há mais de um ano estava vazio o lazareto. Os últimos a habitarem-no foram dois leprosos: um casal, quem sabe marido e mulher. Juntos apareciam aos sábados na feira para ti- rar esmolas, punhados de farinha-de-pau e de feijão, raízes de aipim ou de inhame, batata-doce, uns raros níqueis atirados ao chão — cada vez mais comidos pela praga, buracos em lugar da boca e do nariz, cotocos de braços, pés enrolados em aniagem. Morreram certamente juntos ou com pequena diferença de tempo, pois deixaram de compa- recer à feira no mesmo sábado. Como ninguém se interessasse ou se atrevesse a ir ao lazareto recolher os corpos e enterrá-los, os urubus banquetearam-se com os restos, magro banquete, deixando no cimento os ossos, limpos da lepra.

Maxi das Negras olhava com espanto (e com respeito) para a ca- bocla bonita, manceba do médico, sem necessidade a coagi-la, sem obrigação de nenhuma espécie, as saias arregaçadas, os pés descal- ços, a lavar o chão de cimento do lazareto, a juntar os ossos dos le- prosos, para eles cavando sepultura. Enquanto a funcionária Não-Me- Toques caía fora, abandonando o Posto de Saúde, indiferente a obri- gações e conseqüências — demitam-me, não me importa, não vou morrer aqui — a rapariga, sem salário, sem ter porque, ia de casa em casa, incansável, sem horário e sem medo lavando doentes, pas- sando permanganato nas borbulhas, perfurando-as com espinhos de laranjeira quando cresciam em pústulas cor de vinho, trazendo dos currais bosta de boi para queimá-la no interior das residências. Ele próprio, Maximiano, habituado à miséria do sertão, perito nas maze- las e desgraças do povo, curtido e calejado, sem parentes nem aderen- tes, dono de sua vida e de sua morte, e para aquele emprego contrata- do, mal pago porém pago cada fim de mês, ainda assim, por mais de uma



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